sábado, 4 de outubro de 2008

e o foda-se?

acontece com a maioria das pessoas em algum momento da vida, é normal: quem nunca tocou o foda-se deveras não sabe o que está perdendo.

me lembro da sensação de vitória. você se sente o Chuck Norris, quando com um foda-se bem tocado. anda pelas ruas com o peito estufado, o nariz em pé. você tem uma sensação – que ninguém nunca sabe se é de verdade. mas ah, foda-se! – de superioridade, como se todo mundo na rua lesse uma placa de neón em letras garrafais em cima da sua cabeça, indicando seu estado: “FODA-SE!”, e como se as pessoas tivessem uma espécie de admiração, respeito ou até legítimo medo de você, como se você tivesse o elixir da juventude eterna, a cura da AIDS ou ainda os lábios da Jolie – dos quais eu particularmente não gosto, mas que merecem respeito tecnológico. de qualquer forma, não vamos entrar em pormenores sobre esse assunto. o fato é que você tem uma resposta excelente pra tudo:

- o dvd arranhou / perdi seu livro / bati o carro / seu filho é gay / você foi adotado / amassei o trabalho / vovô morreu / os correios estão em greve / as inscrições já encerraram / comi sua irmã / não te amo mais / nunca te amei / os papéis caíram na lama / o banco estava fechado.
- ah.. é mesmo? - *ar de riso* - FOOOOODA-SE!



aí é isso. você fica lá com sua realeza, a vida segue. com o tempo, as lâmpadas de neón vão ficando fraquinhas. ninguém repara muito. você próprio perde a convicção na sua decisão. afinal, o que é um foda-se? uma anestesia! uma forma de não se obrigar a lidar diretamente com o problema, suas causas e implicações, ou ao menos adiar ao máximo o momento de fazê-lo.

e é esse momento o x da questão: nós, seres humanos ridículos e limitados, não damos limite ao nosso foda-se. deixamos que ele se prolongue indefinidamente. em muitos casos, nós até mesmo nos viciamos nessa procrastinação displicente, injetamos foda-se nas veias como se fosse morfina e nunca, jamais, encaramos o mundo do jeito que ele realmente é. tornamo-nos insensíveis e portadores de uma alegria patética e vazia, de quem não viveu de verdade. e por que somos tão covardes?! por que não somos capazes de lidar com nossas vidas de uma forma honesta, limpa, sem máscaras?

talvez a resposta pra essa pergunta esteja na nossa fragilidade: criamos, ou criam para conosco, uma situação problema, e não temos condições de solucioná-la na atual conjectura. nos desesperamos, descabelamos, choramos, ligamos pro terapeuta... nada resolve o problema.

e se o problema não for resolvido, cedo ou tarde ele vem à tona. na verdade ele é uma bomba relógio, um melanoma. só esperando que você se esqueça dele pra que ele possa causar o máximo de destruição possível. e quando ele vem, você invariavelmente perde alguma coisa. e se você estava num estágio tão avançado de pânico, com tanto medo de perder, é algo relativamente importante, imagina-se.


e isso acontece uma vez, duas, dez... você, por algum motivo, cria e/ou passa por uma seqüência de problemas sem solução. e toda vez você perde algo ou alguém que estimava. às vezes, depois, com muita paciência e dedicação, você consegue recuperar o que foi perdido. mas geralmente você faz questão de perder de novo...


até que depois de perder dezenas de vezes, você está absolutamente descompassado. não tem idéia do que fazer com a sua vida, não quer mais se machucar, machucar ninguém, perder nada... você não agüenta mais quebrar tudo em que põe a mão, acabar com relacionamentos aparentemente perfeitos em questão de semanas... não dá mais, algo tem que ser feito com urgência! caso contrário, você é capaz de jurar que enlouquece e/ou se mata.


aí é quando você toca o foda-se novamente. pra impedir uma tragédia de proporções apocalípticas e como manutenção da sua sanidade. aí fica cíclico, você toca o foda-se, perde algo importante, fica maluco e toca o foda-se de novo pra não se matar.

é covarde? sim. é uma boa solução? não. é, ao menos, uma solução? não. mas é só o que você tem...

moral da história: mas tia Lis, afinal, o foda-se é bom ou ruim?





não sei. foda-se.

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