“...Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito!”
[Pais e Filhos – Legião Urbana]
Esperança. Luz. Festas. Uma nova vida!
Crescer
Quando eu for homem eu vou ser caçador.
Quando eu for homem eu vou ser baleeiro.
Quando eu for homem eu vou ser canoeiro.
Quando eu for homem eu vou ser carpinteiro.
Quando eu for homem eu vou ser... UM HOMEM.
[Trecho do livro feito sobre a grande exposição fotográfica internacional The Family of Man. Ligeiramente adaptado]
O ser humano cresce. Às vezes cresce consigo a esperança infante e a jovem indignação. Às vezes não.
...Aquele garoto que ia mudar o mundo
Agora assiste a tudo em cima do muro
Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia: Eu quero uma pra viver!
[Ideologia - Cazuza]
Reproduzir-se
Maria Farrar, nascida em abril, sem sinais particulares, menor de idade, órfã, raquítica, ao que parece matou um menino da maneira que se segue. Sentindo-se sem culpa afirma que, grávida de dois meses, no porão de uma dona tentou abortar com duas injeções dolorosas, diz ela, mas sem resultado. E bebeu pimenta em pó com álcool, mas o efeito foi apenas purgante. Mas vós, por favor, não deveis vos indignar, toda criatura precisa da ajuda dos outros.
Seu ventre agora inchara a olhos vistos, e ela própria, criança, ainda crescia. E lhe veio a tal tonteira no meio das matinas e suou também de angústia aos pés do altar. Mas conservou secreto o estado em que se achava até que as dores do parto lhe chegaram. Então, tinha acontecido, também a ela!, assim, feiosa, cair em tentação. Mas vós, por favor, não deveis vos indignar, toda criatura precisa da ajuda dos outros.
Naquele dia, disse, logo pela manhã, ao lavar as escadas, sentiu uma pontada como de alfinetadas na barriga. Mas ainda consegue ocultar sua moléstia. E o dia inteiro estendendo paninhos, buscava a solução. Depois lhe vem à mente que tem que dar a luz e, imediato, sentiu um aperto no coração. Chegou em casa tarde. Mas vós, por favor, não vos indigneis, toda criatura precisa da ajuda dos outros.
Chamaram-na enquanto ainda dormir, tinha caído neve, e havia que varrê-la. Às 11 terminou. Um dia bem comprido. Somente à noite pôde parir em paz. E deu à luz, ao que disse, um filho. O filho se parecia a tudo quanto é filho mas ela não era como as outras mães. Mas vós, por favor, não vos indigneis, toda criatura precisa da ajuda dos outros.
Com as últimas forças, ela disse, prosseguindo, dado que no seu quarto o frio era mortal, se arrastou até a privada, e ali, quando, não mais se lembra pariu como pôde quase ao amanhecer. Narra que a esta altura estava transtornadíssima, e meio endurecida, e que o garoto o segurava a custo, pois que nevava dentro da latrina. Entre o quarto e a privada o menino prorrompeu em prantos, e isso a perturbou de tal maneira, ela disse, que se pôs a socá-lo às cegas, tanto, sem cessar, até que ele deixasse de chorar. Depois conservou o morto no leito junto dela até o fim da noite. E de manhã, escondeu-o então no lavatório. Mas vós, por favor, não deveis vos indignar, toda criatura precisa da ajuda dos outros.
Maria Farrar, nascida em abril, morta no cárcere de Moissen, garota-mãe, condenada, quer mostrar a todos o quanto somos frágeis. Vós que paris em leitos confortáveis, e que chamais bendito o vosso ventre inchado, não deveis execrar os fracos e desamparados. Por obséquio, pois, não vos indigneis, toda criatura precisa da ajuda dos outros.
[A infanticida Maria Farrar - Brecht]
O ser humano é frágil. É vulnerável, como dito alguns posts atrás. Somos todos iguais, irmãos em desgraça. Somos a mesma merda orgânica que canta e dança. Mas eu não canso de acreditar na humanidade...
Morrer
Réquiem para uma deusa do sexo.
Agora você está morta, com a mão agarrada ao telefone, o rosto virado para baixo. E vieram os guardas e te puseram as mãos em cima. E mais uma vez errarão todos tentando te interpretar: falarão sobre o telefone, as pílulas, as roupas de baixo, as meias jogadas no chão e não saberão jamais da ânsia de beleza total que foi tua vida, nem que você foi mais pura e delicada de espírito do que toda a realidade em que eles vivem.
O ator Sir Laurence Oliver: “Foi uma vítima da propaganda e do sensacionalismo.”
O diretor John Huston: “ A moça era viciada em soníferos. A culpa é desses médicos canalhas.”
O pastor Billy Graham: “Tudo aquilo que ela buscava estava em Cristo.”
Norman Rosten, amigo de Marilyn Monroe, num verso: “Quem colheu teu sangue? Eu, disse o fã, em minha caneca, colhi teu sangue.”
O jornalista Walter Winchel: “Junto ao caixão, Di Maggio murmurou ‘eu te amo’, doze vezes seguidas.”
Peter Lawford, cunhado de Kennedy: “Estou chocado. Minha mulher viajou ontem até aqui só para assistir os funerais e nem fomos convidados.”
Dos três homens com quem Marilyn tinha sido casada, James Dougherty, o policial que casou com ela quando tinha 16 anos disse apenas: “Sinto muito” e voltou à ronda. Joe di Maggio levou-a até o túmulo. E Arthur Miller declarou à imprensa: “Não vou ao enterro. Ela já não está mais lá.”
[Retirado da revista americana Look]
Considerações finais:
Obrigada a Millôr por ter reunido por mim os textos desse post e outros tantos no livro O Homem do Princípio ao Fim. Caso alguém leia esse blog e se interesse, só me pedir o livro que eu empresto.
Carol leitor, caso você realmente exista e esteja aí esperando a tanto tempo por ler alguma coisa, eu, Lis, peço perdão em nome das moças desse blog. Nós estamos na reta final de um insano bimestre de caos total, desespero, unhas roídas. Eu mesma deveria estar estudando agora, mas saí da cama hoje às cinco da manhã com esse post na cabeça não consegui sossegar até agora, 23h, finalmente podendo postar. Enjoy it, porque é o único por hora. Estamos meio que em hiatus. Grata pela compreensão, a gerência.
bisous,
Lis.

